Zine Brasil Entrevista: ANTONIO CEDRAZ
17/03/2007 Por Michelle Ramos
Antonio Luiz Ramos Cedraz, mais conhecido como Antonio Cedraz, nasceu numa fazenda no município de Miguel calmon, na Bahia, formado em Magistério, trabalhava como professor primário, e na cidade de Jacobina exercendo esta profissão, teve seus primeiros contatos com as histórias em quadrinhos.
Em 1998 teve a idéia de criar a Turma do Xaxado, personagens com os pés fincados no chão de nosso Brasil, retratando com suas aventuras e experiências infantis a dura realidade do Nordeste Brasileiro, a descriminação racial e nossos costumes e lendas tão admirados em todo o mundo.
Não sabia ele que hoje sua turminha seria um trabalho reconhecido, admirado, ganhador de vários prêmios e comparado a grandes personagens dos quadrinhos mundiais.
Reconhecido como Mestre do Quadrinho Nacional pelo Prêmio Ângelo Agostine, e colecionador já de cinco prêmios HQMIX, Cedraz demonstra três características muito raras de se encontrar num único quadrinista brasileiro, humildade, paciência e profissionalismo. Agradeço novamente a ele, a honra de ter nos cedido esta maravilhosa entrevista.
Então deixando de papo, conheçam (se ainda não) Antonio Cedraz!
Quando e Como foi seu primeiro envolvimento com os quadrinhos?
Quando eu tinha cerca de 16 anos, vi um rapaz desenhando e quis também fazer um desenho. Gostei da experiência e não parei mais.
Como surgiu a idéia de criar a Turma do Xaxado?
Quando me aposentei do banco onde trabalhava, pensei em dar continuidade as minhas idéias e procurei formar uma turma que tivesse muita coisa do Brasil. Comecei com o Chapéu do Xaxado que representa o nosso nordeste e depois, já com a equipe pronta fui formando os demais personagens.

Qual a repercussão da Turma com relação às crianças?
É impressionante a resposta dos leitores. Hoje mesmo recebi um e-mail de um professor que estudou as tiras do Xaxado em um curso de “Semiótica e Semiologia”. Todos os dias recebo diversos e-mail de leitores de todas as idades. Costumo dizer que quem ler os historias do Xaxado fica viciado.
Ao que parece o Governo da Bahia apóia a produção de quadrinhos no Estado, isto está certo ou só parece?
O Governo da Bahia tem um programa muito bom para a cultura local, o Fazcultura. Ele nos apóia aprovando os nossos projetos o que nos ajudado muito.
Você VIVE, financeiramente falando, dos seus quadrinhos?
Não! Digamos; eu sou aposentado do ex-Banco Econômico. O estúdio Cedraz se mantém, às vezes com dificuldades, com os trabalhos de quadrinhos institucionais, ilustrações e a venda dos livros do Xaxado. Na verdade o Xaxado é o meu sonho de vida e logo, se Deus quiser, vai dar para ter uma situação mais confortável. Quando o Xaxado puder se manter sozinho, eu deixo de fazer esses trabalhos.
Quantas Revistas da Turma do Xaxado já foram publicadas?
Atualmente temos 15 livros e duas revistas com edição própria. Mas já foram publicadas cerca de 35 revistas pela Editora Escala (4 de quadrinhos e as demais de colorir e brincadeiras). Este ano vamos ter muito mais publicações e até algumas surpresas.
Por enquanto as publicações do Xaxado são vendidas aqui em feiras de livros dos colégios e através da Internet no www.xaxado.com.br.

Tem algumas pessoas estudando alguns projetos de animação. Se Deus der mais uma forcinha...
Você é o responsável por todos os roteiros e desenhos da Turminha? Quanto tempo do dia você se dedica a Turma do Xaxado para dar conta de tanta produção?
Não! Eu tenho uma equipe muito boa que cuida de boa parte da produção. Sidney que faz os desenhos e Mariel as artes-finais. Tom Figueiredo faz argumentos e Victor às cores. Atualmente eu sou o técnico que fiscaliza para que tudo saia como eu sempre pensei.
Nós costumamos fazer de 2 a 3 páginas de quadrinhos por dia, ou 4 tiras.
Qual o maior objetivo que você tem ao escrever uma HQ da Turma do Xaxado?
Mostrar que podemos fazer histórias genuinamente brasileiras. Que temos tipos e gentes que podem ser retratados com dignidade e que podem contribuir na difusão da nossa cultura e cidadania.
Existe algum outro projeto com relação à Turma do Xaxado que você gostaria de comentar previamente conosco?
Tenho proposta de fazer desenho animado e teatro. Mas isso é ainda estudo.

Muito boa, a cada dia surge um novo artista querendo participar dessa brincadeira. Como pode ver no fotolog, as possibilidades e o carinho dos colegas com minha turminha são grandes. Muito obrigado a todos.
Existe alguma possibilidade de vermos outros artistas quadrinizando as histórias da Turma do Xaxado?
Quem sabe? É bem provável que sim.
Você e a Turma do Xaxado já receberam diversas premiações e menções honrosas em concurso e exposições tanto no Brasil como no Exterior, inclusive o Prêmio Ângelo Agostine de “Mestre do quadrinho Nacional”. Qual a repercussão destas premiações com relação às Editoras Brasileiras?
Nenhuma. Elas simplesmente ignoram. Não sei o que se passa na cabeça desses editores. Eles preferem investir no que é estrangeiro ou do eixo Rio/S. Paulo (com poucas opções). Também tem razão, os leitores, na maioria, não gostam do que é produzido no Brasil verdadeiro.
Veja o exemplo da Globo, depois que perdeu o contrato do da Turma da Mônica preferiu investir no Sítio. Tem tantos bons quadrinhos feitos no Brasil e eles simplesmente ignoraram. Não tem coragem para investir, para arriscar a descobrir novos Maurício.

Infelizmente não. Eu tenho um projeto aprovado na Lei Rouanet (Ministério da Cultura) mas, está difícil de conseguir patrocinadores.
Em sua opinião, por quais motivos, é tão difícil encontrar Patrocinadores para investir
Não é tão difícil assim. O negócio é fazer um bom projeto (de preferência contratar um produtor cultural) e batalhar. Os patrocinadores não estão interessados em quadrinhos (a maioria não sabe o que é isso). A gente tem que falar que é cultura etc.
O que o artista brasileiro pode fazer para reverter a atual situação do nosso apático Mercado de Quadrinhos?
Procurar insistir e mostrar que faz quadrinhos e tem produção. Não adianta o cara fazer uma só historinha e dizer que já é artista. Tem que mostrar serviço.
Você sempre envia seus projetos e histórias para as editoras em busca de possível interesse na publicação? Se sim, qual a resposta que elas dão para não publicar?
Já enviei muito. Agora procuro selecionar as editoras. Mas está muito difícil! A maioria nem responde. Com a saída do Maurício da Globo, um amigo me incentivou para que eu enviasse material. Preparei um bom material (revista, livros, folhetos material de apoio etc) e enviei. Mostrei que estava preparado para ter uma chance. Os caras nem responderam.
Você acompanha as publicações Independentes? Quais fanzines você já leu e os indicaria como exemplos de material de qualidade entre eles?
Fui, sou e sempre serei fanzineiro. O fanzine é uma boa mídia para se publicar. O pessoal de Pernambuco tem uma excelente material (Prismate, por exemplo). Na verdade em todo o Brasil tem surgido bons fanzines que já merecem o título de revista, pelo material profissional e como eles encaram a coisa. O QI, do Edgar Guimarães, é um destaque, e referência.
De forma geral, existe algum quadrinho que você esteja acompanhando ultimamente?
Tenho comprado pouco quadrinho
O que motiva você a continuar com seu trabalho todo dia, mesmo com todas as dificuldades impostas pelo mercado brasileiro de quadrinhos?
O sonho de vencer. Se eu desistir vou ter a sensação de derrota. Confesso que está difícil. Tem mês que chego a pensar que não vou conseguir trabalho para pagar aos meus colaboradores e parceiros (Sidney Falcão, Tom Figueiredo, Vitor Souza e Mariel Viana) mas, Deus sempre arranja um trabalhozinho e tenho honrado com os compromissos.
O que podemos esperar daqui para frente das histórias da Turma do Xaxado?
O Xaxado é meu sonho maior. Cada dia que passa mais ele ganha espaço. Para o futuro, espero fazer algum desenho animado e até ter minhas revistas
Qual sua dica para iniciantes (ou não) que querem investir seu tempo e trabalho para fazer quadrinhos?
Minha dica maior é se profissional. Mostrar o melhor trabalho que puder fazer. Estudar desenho e ler bastante. E, de preferência, nunca desistir.
Obrigada Cedraz, pela paciência e por sua dedicada atenção ao nosso trabalho, assim como a essa entrevista, todo sucesso a você e sua turminha.
Quem agradece sou eu. Você é uma amiga que tem prestigiado os meus trabalhos e de muitos independentes no Brasil. Continue e que Deus a proteja.
Entrevista realizada entre Fevereiro e Março de 2007.




