E quem disse que o Brasil não possui um super-herói super?

17/01/2007 Por Sergio Chaves

 

Em outubro de 1997, a saudosa revista “Metal Pesado” resolveu lançar uma edição especial em comemoração aos 15 anos da Gibiteca Municipal de Curitiba. Para a tarefa, foram chamados oito grandes cartunistas da cidade local, que receberam carta branca para criarem o que achassem melhor.

A idéia que tiveram?

Que tal criar uma personagem ilimitada, onde pudesse ser trabalhada em diversos traços e narrativa, e sua essência permanecesse cada vez mais interessante? Pois então, seguindo justamente essa linha de pensamento que surgiu, pelas mãos de Alessandro Dutra, Antonio Eder, Augusto Freitas, Gian Danton, José Aguiar, Luciano Lagares e Tako X (com capa de Nilson Miller), o já clássico personagem GRALHA, um super-herói que “de tão clichê, é completamente original”. Dessa miscelânea de vários autores, cada aventura foi marcada por um estilo diferente (algo presente sempre). Alguns nos moldes fiéis do gênero super-heróis, outros claramente os escrachando.

Já de cara, a edição arrematou o prêmio HQMix (de Melhor Revista Mix de 1997), e em seguida o super-herói curitibano passou a ser publicado semanalmente pelo jornal Gazeta do Povo, no caderno Fun (de 1998 a 1999). Em 2001, o GRALHA teve uma coletânea de suas HQs editada pela Via Lettera – faturando novamente o troféu HQMix (de Melhor Álbum de Ficção de 2001). Paralelamente, suas HQs foram ganhando um espaço cada vez maior via Internet, conquistando um grande número de fãs em pouquíssimo tempo, confirmando que para o “Vigilante das Araucárias” não existe limites. Nem dentro ou fora dos quadrinhos.

            Em 2002, a produtora Photon Filmes, junto aos criadores do herói, lançou seu primeiro curta-metragem, O Gralha – O Ovo ou a Galinha”, em comemoração aos 20 anos da Gibiteca de Curitiba. “Basicamente este filme foi feito para os fãs de National Kid, dos quadrinhos do Frank Miller, do cinema e do rock... uma homenagem àqueles super-heróis que no fundo somos todos nós mesmos...”, disse cartunista Tako X, diretor responsável pela adaptação.

Mal surgiu a versão cinematográfica do herói, e ele novamente arrematou uma nova premiação, no 7º Festival de Cinema de Curitiba, em 2003, como Melhor Filme (Troféu Ruy Guerra - Voto Popular).

Conseqüentemente, o curta-metragem ganhou continuidade, em 2004, com O Gralha e Oil-Man – Um Encontro Explosivo, novamente interpretado por Eduardo Moreira – que, além de encarnar o herói paranaense também é quadrinhista, caricaturista, designer, entre muitas outras “multi-atividades”.

E, como se já não “bastasse”, o GRALHA foi mais além! Em meados de 2005, o herói inovou mais uma vez, estreando nos palcos teatrais da capital paranaense.

Com texto e direção de Edson Bueno (inspirado em roteiros escritos por José Aguiar) e montagem da Cia Máscaras de Teatro, a peça costura diversas cenas de histórias publicadas e de outras ainda inéditas do GRALHA, que adapta fielmente o espírito das HQs.

Antonio Eder, Tako X, José Aguiar, Augusto Freitas, Luciano Lagares, Edson Kohatsu, Jairo Rodrigues, Rogério Coelho, Eduardo Moreira fazem parte hoje do grupo responsável pelo Vigilante das Araucárias, cada contribuindo sempre à sua maneira peculiar para o desenvolvimento do herói.

Cartum, realista, abstrato, experimental, e agora mangá. Para o GRALHA, não há limites, não há definições. O personagem já é sinônimo de trabalhos diversificados, de qualidade.

 

A lenda, o herói.

         Do grupo reunido para a realização do especial da Metal Pesado, surgiu a idéia de uma homenagem ao personagem desconhecido dos quadrinhos curitibanos, o "Capitão Gralha", criação do (também desconhecido) Francisco Iwerten, nos anos 40 – diz a lenda ainda, que a idéia de Iwerten surgiu após visitar os estúdio do criador do Homem-Morcego, Bob Kane.

O Capitão Gralha era um fugitivo de um planeta de homens-pássaros, regido pelo terrível Thagos, o usurpador. Refugiando-se na Terra, o Capitão Gralha utilizava seus poderes alienígenas no combate ao crime no Paraná. Influenciado por personagens da época, o saudoso herói teve vida breve: foram publicados apenas três números de suas aventuras (há rumores ainda de uma quarta edição, mas sem confirmação), mergulhando esse trabalho pioneiro no mesmo abismo que tantos outros precursores das HQs nacionais. Infelizmente, ninguém sabe se existe ainda algum exemplar de suas revistas.

Para a revitalização do super-herói, os artistas decidiram alterar o homem alado com um "G" no peito e bigodinho pelo jovem Gustavo Gomes, 19 anos, um estudante que descobre ser descendente do Capitão Gralha original. Seus poderes latentes são ativados pelas duas bolas amarelas na máscara do seu uniforme: as "Gemas do Poder". Gustavo é desatento, não muito articulado e conta mais com o seu azar do que com seus poderes para combater o crime. Mora sozinho numa kitnet e vive da mesada paga pela mãe, que vive no Interior.

Um herói iniciante em uma metrópole um pouco diferente da Curitiba de hoje, em um futuro próximo e mais tecnológico, onde todas as características da verdadeira são elevadas à enésima potência.

Os poderes do GRALHA são, na definição dos autores, o "kit básico" do super-herói, e um pouco mais: vôo, superforça, superaudição, ventriloquismo, entre muitos outros, alguns nem dominados ao certo pelo herói. O GRALHA ainda não conhece a real extensão de suas capacidades, nem possui total controle sobre as que já conhece, ficando a um deslize entre a tragédia e salvação. Muitos vilões já fazem parte do universo do herói, como o Craniano; Araucária; Doutor Botânico; O Bagre Humano; Biscuí do Mato; Pivete Cibernético; Café Expresso; o Homem Lambrequim; o Doutor Marrom e a Polaquinha, entre outros, sempre representados por características típicas da cidade local.

A ave gralha-azul é um dos símbolos do estado do Paraná. Pouco mais que um passarinho grande, não é uma ave de rapina, assim como o GRALHA é um herói nada avantajado, mas tem sua importância no meio em que vive. Idem ao herói.

 

Conheça suas HQs e demais trabalhos acessando seu site: www.ogralha.com.br

E também sua comunidade oficial no Orkut: www.orkut.com/Community.aspx?cmm=81391

 

Sergio Chaves é Roteirista e Editor dos Fanzines Justiça Eterna e Universo subterrâneo.